Estamos desaprendendo a dormir? Psicóloga explica por que descansar ficou tão difícil

Dormir menos do que o necessário deixou de ser visto apenas como consequência de uma rotina corrida. Para especialistas em saúde mental, noites mal dormidas vêm se tornando um dos principais fatores associados ao aumento da ansiedade, irritabilidade, dificuldade de concentração e queda da produtividade. Mais do que descansar o corpo, o sono é um processo essencial para o equilíbrio emocional e o funcionamento adequado do cérebro.
Segundo a psicóloga Ive Priscila Carnavarolo Camanducci, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), muitas pessoas acreditam que basta deitar-se na cama para dormir, quando, na verdade, o sono saudável começa horas antes. “O sono não acontece apenas quando fechamos os olhos. Ele é preparado ao longo de todo o dia, pelas nossas escolhas, pelos hábitos que construímos e, principalmente, pela forma como lidamos com o estresse e a ansiedade”, explica.
Embora a maioria dos adultos necessite de aproximadamente sete a nove horas de sono por noite, quantidade não significa qualidade. É possível permanecer muitas horas na cama e, ainda assim, acordar cansado quando o sono é interrompido diversas vezes ou quando o organismo não consegue atingir suas fases restauradoras. Nesse contexto, ganha importância a chamada higiene do sono, um conjunto de hábitos reconhecidos pela medicina do sono que favorecem o adormecimento natural e ajudam a manter um descanso contínuo e reparador.

Ive Camanducci aponta que pequenas mudanças na rotina costumam produzir resultados mais consistentes do que soluções imediatas. “Muitas pessoas procuram respostas rápidas para a insônia, mas esquecem que o cérebro aprende por repetição. Quando criamos uma rotina previsível, ele passa a entender que aquele momento é seguro para desacelerar”. Entre as recomendações mais importantes, a especialista destaca:
- manter horários regulares para dormir e acordar, inclusive aos finais de semana;
- evitar o uso de celulares, computadores e televisão pelo menos uma hora antes de dormir;
- reduzir o consumo de cafeína e refeições pesadas durante a noite;
- praticar atividade física regularmente, preferencialmente fora do período noturno;
- manter o quarto escuro, silencioso e confortável;
- reservar a cama apenas para dormir, evitando trabalhar, estudar ou assistir televisão deitado.
Segundo a psicóloga, um dos erros mais comuns é tentar “compensar” noites mal dormidas com longos cochilos durante o dia. “O cochilo prolongado reduz a pressão natural do sono e pode dificultar ainda mais o descanso à noite. Quando necessário, ele deve ser curto e acontecer no início da tarde”, afirma.
Outro hábito cada vez mais frequente é permanecer no celular até poucos minutos antes de dormir. Além da luz emitida pelas telas interferir na produção de melatonina, Ive explica que o conteúdo consumido também influencia diretamente o estado emocional.
“Não é apenas a luz azul que desperta o cérebro. As notícias, redes sociais, vídeos e mensagens mantêm nossa mente em estado de alerta justamente quando ela deveria começar a desacelerar”.
Para a especialista, também é importante compreender que dificuldades persistentes para dormir podem estar relacionadas a questões emocionais mais profundas. “Quando a pessoa deita e a mente começa a acelerar, revisitando problemas, preocupações ou antecipando situações futuras, muitas vezes estamos diante de um padrão de ansiedade que precisa ser acolhido. Nesses casos, apenas mudar hábitos pode não ser suficiente”. A psicóloga ressalta que a Terapia Cognitivo-Comportamental é considerada uma das abordagens mais eficazes para o tratamento da insônia crônica justamente por atuar na identificação dos pensamentos, emoções e comportamentos que mantêm o problema.
“O sono é uma necessidade biológica e um dos principais pilares da saúde mental. Priorizar o descanso é investir em equilíbrio emocional, saúde, qualidade de vida e prevenção de diversos transtornos”, conclui Ive Camanducci.
Fonte: Psicóloga Ive Camanducci – especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)

